Entre vales e montes, em um lugar distante 200km de Porto Alegre, nascia o município Anta Gorda. Foi em 1963 que a localidade passou a ser mais um munícipio a integrar o Rio Grande do Sul. Mas a história vem antes disso, há mais de 100 anos, os colonos desbravadores já aqui estavam. A maioria era da Itália. Foi em 1904 que os italianos chegaram no município. Entre as principais famílias, estavam as de: Pedro Miotto, Pedro Triches, Olívio Dal Pasquale, Benvenuto e Ângelo Fornari, José Botolli, José Goldoni, Domingos Matiello, Batista Grando, Celeste Andrighi, Estevão Teló e outros. Antes deles ainda, a região era habitada por poloneses e alemães, mas, devido, principalmente às diferenças culturais, após a chegada dos italianos, os imigrantes que ali estavam, retiraram-se para outras regiões, fazendo com que a localidade passasse a ser habitada quase que exclusivamente por descendentes italianos.

No Centro da cidade, um monumento com a forma de uma anta, no chafariz da praça, logo chama a atenção. O símbolo faz alusão ao animal que originou o nome da municipalidade. O curioso nome foi conferido ao município ainda nos primórdios da sua colonização, quando toda a região era constituída de densas matas entre os rios Guaporé e Forqueta. Sabe-se que, devido a essas condições naturais favoráveis, a área era muito rica em espécies vegetais e animais, em especial as antas. Conta-se que, certa vez, foi abatida nas cercanias, uma anta de grandes proporções. Admirados com o tamanho do animal, os desbravadores logo passaram a utilizar o fato como referência sempre que se mencionava o local. Diziam: “Lá onde mataram a anta gorda…”.

Como se pode deduzir, a cultura popular não demorou a assimilar o nome, todos os moradores da região já denominavam a área como “Anta Gorda”. A tentativa de mudar o nome foi em vão. Em 1910, quando a localidade passou a ser oficialmente o 4° Distrito de Lajeado, seu nome foi modificado para “Carlos Barbosa”, porém, a nova denominação não gerou repercussão entre o povo, que continuava optando pelo nome antigo. Dessa forma, em 1912, o povoado voltou a chamar-se oficialmente de Anta Gorda.
Caçadores com o animal que deu origem ao nome da cidade

Com a emancipação política de Encantado em 1915, Anta Gorda passa a ser 2° distrito desse município. Neste mesmo ano, foi realizado o primeiro recenseamento, cujo resultado apurado foi de 5.558 habitantes em Anta Gorda e 3.322 em Itapuca. Em 1920, era criado o distrito de Putinga, formado de parte de Anta Gorda, que assim sofria uma sensível redução no seu território. Anta Gorda até já foi sede do município de Encantado, isso em 1936 quando, por questões políticas, a prefeitura foi transferida de lá. O Distrito de Itapuca também já pertenceu à Ilópolis, isso entre 1938 e 1950. Desde que passou à Distrito, Anta Gorda também contava com Dr. Ricardo, mas em 1959, essa localidade virou Distrito de Encantado também e o território antagordense foi ainda mais diminuído.

A comissão emancipadora foi formada por Arminho Miotto – Presidente, David Goldoni – 1º vice, Antonio José Arossi – 2º vice, Dorvalino Periolo – 1º tesoureiro, Alberto Polese – 2º dito, Demétrio Zuffo – 1º secretário, João Pavoni – 2º dito. Também apoiaram o movimento os seguintes cooperadores: Giordano Citolin, Aníbal Corbellini, Antonio Tremea, David Lazzari, Antonio Miotto, Ângelo Baratto, José Dameda, Orestes Santin, Waldemar Bresolin, José Contini e Remígio Casagranda.

O caminho para que Anta Gorda pudesse ser chamada de município, não foi simples e nem tão rápido para esses cidadãos. Eles dedicaram dias e dias, passavam de casa em casa, ficavam noites longe de suas famílias para que a votação do plebiscito tivesse êxito. No dia oito de dezembro de 1963 ocorreu o plebiscito popular para a população dizer se queria ou não a emancipação. No total, 1.453 eleitores, dos 1.984 inscritos na zona a ser emancipada, compareceram às urnas. Foram favoráveis 1.209 pessoas e 223 votaram contra.

O processo registrado junto à Assembleia do Estado tem 511 páginas. São dezenas de certidões, estudos, fotos e mapas e milhares de assinaturas e dados, que foram coletados em um trabalho constante da comissão emancipacionista. Em 2013, ano do Cinquentenário do município, o prefeito Neori Luis Dalla Vecchia solicitou junto à autarquia uma reprodução de todos os documentos. Assim, é possível conferir hoje, em cópia fiel, que encontra-se na prefeitura, tudo o que foi registrado na época, desde a votação, de urna por urna, com todos os nomes, até os argumentos e dados usados para conseguir a emancipação. Naquele ano, os contribuintes de impostos da localidade, conforme consta no processo, eram 83 entre empresas e profissionais.

As primeiras eleições municipais ocorreram no dia 29 de março de 1964, com um único candidato a prefeito: Arminho Miotto. O vice, também com candidatura única, foi Milton Bertuol. Ambos alcançaram, respectivamente, 1.241 e 1.183 votos. Os primeiros vereadores eleitos foram: David Goldoni, Romildo Bocchi, Antonio Dametto, Abrelino Marino Frandoloso, Giordano Citolin, Alves Luiz Rebelato e Ampélio Girolamo Ortolan. Em sete de abril de 1964, dá-se a posse dos eleitos.

Já passaram por Anta Gorda os prefeitos Arminho Miotto, Genoíno Dallé, Neori Luis Dalla Vecchia, Aldi João Bisléri, Ermano João Cauzzi, Carlos Francisco Dametto, Eraldo José Leão Marques e Vanderlei Antônio Moresco.

 

EDUCAÇÃO

O progresso de uma comunidade está também diretamente ligado à educação. Entre 1900 e 1940, o Brasil, no geral, era pobre principalmente em valores culturais. A taxa de analfabestismo era de cerca de 90%. Somente grandes centros possuíam educandários.

Padre Catelli, no ano de 1919, iniciou uma luta pela vinda de irmãs à Anta Gorda, pois via o crescimento educacional que elas implantavam em Guaporé. Para tanto, era preciso construir uma escola. Um mutirão de voluntários, correspondendo ao apelo do vigário, ergueu um prédio de madeira, de três pisos, que serviria para residência das freiras, escola, reuniões e recreação.

Primeira escola do município (1930)

Tudo levava a crer que rapidamente as irmãs viriam. Mas quando faltava apenas a colocação dos vidros no prédio, o Padre recebeu resposta negativa da Superiora Geral das Irmãs Carlistas.

Mesmo com o desânimo tomando conta do povo, Padre Catelli não desistiu. Fez dezenas de viagens à Guaporé em busca de boas notícias. Nesse período, parte da nova construção foi ocupada pela professora Carmelina Sanson Martinelli, que lecionava de forma particular.

Somente dez anos depois da construção do prédio, Madre Assunta Marchetti, vindo da Itália e passando por Anta Gorda, prometeu atender o pedido do vigário. Aos três dias do mês de janeiro de 1930, quatro irmãs partiram de Bento Gonçalves e chegaram à Anta Gorda.

O povo fez muita festa e uma multidão as recepcionou na chegada. Em 1º de março do mesmo ano iniciaram-se as aulas na Escola intitulada de Santa Teresinha com 115 alunos.

 

SAÚDE

De acordo com os mais idosos do município, logo no início da colonização de Anta Gorda, os recursos existentes na área da saúde restringiam-se à medicina popular. Ao chegarem, as primeiras famílias enfrentaram uma série de problemas econômicos, sociais e culturais, mas não foram só essas as dificuldades. A falta de assistência médica destacou-se bastante, especialmente com as mulheres grávidas. Parteiras da comunidade realizavam os partos e o número de mortalidades ao nascer era expressivo. Angelina Paseti, Ema Potrick, Celesta Zuffo, Vicenza Dalvit, Adelina Rigoni, Ida Coles, Josefina Rebelatto e Tereza Antonelli eram as parteiras mais conhecidas.

HOSPITAL SÃO CARLOS Hospital São Carlos

Na área odontológica tudo também era muito precário. O atendimento se restringia a extrações de dentes. No ano de 1920, Anta Gorda passou a contar com seu primeiro médico: Michelle de Patta. Ele atendia os doentes à domicílio e quando aconteciam casos mais graves os pacientes eram levados de padiola, uma espécie da maca, até o hospital da cidade de Bento Gonçalves. Há quem diga que ele foi protagonista de um episódio lastimável, tendo discutido com Padre Hermínio Catelli e causado revolta entre a população que, na época, praticamente o expulsou da cidade.

Em 1923, foi construído o primeiro hospital de Anta Gorda, chamado de “Hospital São Carlos”. Dezoito anos depois, surgiu o “Hospital São Luiz”, mantido pelo médico Paulo Carvalho Ribeiro. O local era improvisado e não possuía boas condições, fazendo com que a população se organizasse e fundasse o atual hospital.

Através da compra e venda de ações, um grupo de pessoas formou e cadastrou, junto aos órgãos competentes, um movimento para sua fundação. Em 1942, irmãs carlistas assumiram a administração do local. A inauguração deu-se em 1943 e a denominação de Padre Hermínio Catelli foi pela estima e gratidão ao sacerdote que atuava na Paróquia.

Outro fato curioso deu-se nesse mesmo ano. O Hospital precisou mudar o nome e passou à ser chamado de Hospital Brasil devido à 2ª Guerra Mundial. Segundo antigos imigrantes da época, os estrangeiros foram perseguidos. Na região, foi proibido até que fosse falado o dialeto do italiano, tão comum e difundido. Havia quem tivesse ficado praticamente sem sair de casa, pois não sabia falar o português. Em 45, ao findar a Guerra, foi solicitado a volta do nome Padre Hermínio Catelli, fato ocorrido em 1947.

Pouco mais de uma década depois, em 1960, destituiu-se a diretoria, desfez-se a sociedade e o Hospital foi adquirido definitivamente pelas irmãs carlistas que registraram o nome que seguiu até hoje – Hospital Beneficente Padre Catelli.

É incontestável a importância do hospital no município, levando em conta que o governo, só no ano de 75, implantou atendimento gratuito no município, atendendo a população através de quatro postos de saúde.

 

FESTAS

As diversões e o lazer sempre estiveram presentes. Os bailes, aos sábados, iniciavam por volta das 20 horas e terminavam sempre em torno da meia-noite, e, aos domingos, eram das 13 às 18 horas. Iam aos bailes, os casais e jovens e as moças acompanhadas de seus pais. Brincadeiras como a dança da vassoura, do chapéu, do espelho e outras, eram comuns como atrações.

 

MEIOS DE TRANSPORTE

Um dos primeiros veículos do municípioUm dos primeiros veículos do município

Os primeiros habitantes tiveram uma missão dura, enfrentando a mata e abrindo trilhas, picadas e finalmente estradas. O meio de transporte utilizado era o cavalo. Para transportar animais e a produção eram utilizadas carroças. As mercadorias e mantimentos eram trazidos por via fluvial até Muçum e de Muçum, à Anta Gorda. O primeiro carro antagordense chegou em 1927 e era propriedade do cidadão Pedro Trichês, um modelo Ford 27.

 

MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Anta Gorda, em meados de 1918, quando ainda distrito, publica seu primeiro jornal “VÉRITAS VINCIT”, com quatro páginas e de circulação mensal.

No ano de 33 surgiu o periódico “A SERRA” de Ernesto Triches, com circulação quinzenal.

“O Alfinete” surgiu em 35, com cunho crítico-humorístico e a impressão de seis edições.

Todos não foram muito à diante. Mas o Correio do Povo e o Diário de Notícias, de abrangência estadual, circulavam normalmente entre os assinantes.

O primeiro telefone surgiu em 1919. Era manual e possuía 30 linhas ligadas ao centro telefônico de Dr. Ricardo.

O serviço de correspondência era feito através de uma estafeta que partia de Encantado recolhendo e distribuindo as cartas à domicílio. Em 1937, foi oficializado o agente do Correio de Anta Gorda, seu Annibal Corbellini.

 

AGRICULTURA E PRODUÇÃO – INDÚSTRIA E COMÉRCIO

Já no início da colonização, a agricultura tinha destaque com o milho o feijão e o trigo. O preparo da terra era feito manualmente, com enxadas e arados. Os produtos eram semeados a lanço ou em covas e, para cobri-lo, era arrastado um galho de árvore. Já a pecuária, apresentava números significativos com a suinocultura e com a avicultura devido às condições geográficas do município. A maior dificuldade dos criadores era a distância até o posto de venda e a falta de meios de transportes.

Em meados de 1921, surge o Frigorífico Fornari Busetti, facilitando o comércio e o abate de suínos. Na época, a instalação contribuiu grandemente para o desenvolvimento de Anta Gorda. Desativado em 1969, causou graves problemas de ordem econômica e social para a população.

Atualmente, o município continua com o setor primário como seu carro chefe, produzindo cinco mil cabeças de gado e 22 milhões e 200 mil litros de leite anuais – duas milhões e seiscentos e dez mil aves de corte – e 200 mil suínos, nas mais variadas fases de produção. A lavoura de milho, rende, anualmente, 36 mil toneladas – a de soja 445 toneladas – e a de fumo, 3.960 toneladas, sendo que essa, hoje, é a cultura que mais dá retorno de ICMS ao município. Anta Gorda conta com 1.350 hectares de erva-mate e algumas propriedades cultivam também laranja, bergamota, noz pecan, uva, couve-flor e brócolis.

Hoje, com uma área territorial de 243 Km², Anta Gorda abriga 6.073 habitantes, segundo o último senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2010.

 

 

Texto:
Morgana Colombo – Mogui Assessoria em Comunicação

 

 

Fontes:
– Processo de Emancipação de Anta Gorda registrado na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul
– Livro “Anta Gorda: Visão de ontem e de hoje”
– Livro dos 40 anos de Anta Gorda
– Dados do Escritório Municipal da Emater/Ascar RS
– Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas
– E depoimentos de pessoas que viveram no município por volta de 1963.

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